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18º Curso Anual debate criminalização da pobreza pela mídia comercial

[Por Sheila Jacob]

face47

Na noite de quarta-feira, 21.11, Vera Malaguti Batista (ICC), Débora Silva (Mãe de Maio) e José Claudio Alves (UFRRJ) falaram sobre o papel da mídia hegemônica na naturalização da criminalização de pobres, negros e favelados no país. A professora Vera Malaguti Batista fez um breve histórico da questão criminal no Brasil. Ela lembrou que do século 13 ao 18, no movimento de centralização da igreja, surgimento do Estado e início do processo de acumulação do capital, o Ocidente objetificou seus medos e criou uma série de “outros” perigosos: antes eram bruxas, hereges, judeus, muçulmanos…  Hoje são os negros e favelados. “Marx aborda a criminalização como estratégia de controle social da potência revolucionaria dos pobres”, explica. Segundo ela, a avaliação permanece atual: “a pobreza não é criminalizada hoje pela falta de algo; é pela força que ela tem”, avalia.

Segundo Malaguti, para pensar o Brasil e o mundo de hoje temos que pensar que quem sustenta a economia do mundo são os países e os setores pobres e periféricos. Criminalizá-los é algo bastante lucrativo. “O capitalismo produz várias formas de criminalização: vigilância, perseguição de camelôs, do comércio varejista de drogas”. Em relação à pacificação, segundo Vera Malaguti, a palavra “pacificar” tem sentido genocida na sociedade brasileira. “As políticas de segurança publica transformam as favelas em campos de concentração, onde a gestão da vida cotidiana é policial. Primeiro chega a polícia, depois vêm os projetos sociais. Bem depois mesmo, porque o que vem primeiro é a light, a net, os bancos, os serviços privados etc”.

E, segundo ela, a mídia foi o grande artífice da construção do “outro” dos dias de hoje: são os jovens da periferia e suas manifestações culturais. Assim como o funk é proibido hoje, o samba e a capoeira já foram perseguidos antes. “Nilo Batista diz que existe um fetiche do crime porque, em sua midiatização, normalmente se esconde todo o conflito social  que existe por trás. Quando se criminaliza a juventude popular, silencia-se sobre a falta de projeto educacional, social, cultural… Quando tem ônibus queimado nunca se explica que por trás daquilo sempre tem chacina em uma área de periferia”, analisa. Para Vera Malaguti, não é possível usar o sistema penal contra os poderosos. “Poderoso é quem dirige a criminalização, é quem pilota o sistema penal. Hoje existe uma enorme população encarcerada, nas piores condições. E a condição carcerária infelizmente não vem sendo discutida hoje”, observou. Ela concluiu dizendo que é papel dos comunicadores populares, reunidos no Curso Anual do NPC, lançar um outro olhar sobre todos aqueles que estão sendo trucidados, presos e contidos da forma mais violenta. Gente que não tem espaço nos meios tradicionais. 

Débora Silva: o relato da dor 

Débora Silva (Mãe de Maio)

Débora Silva (Mãe de Maio)

Débora Silva trouxe a fala emocionada de uma mãe que perdeu seu filho e, após este triste fato, decidiu lutar por justiça e para que outras mães não passem pelo mesmo sofrimento. Como ela explicou, o movimento das Mães de Maio foi criado em 2006 depois da morte de seu filho. “Não foi o PCC que matou meu filho, foi a polícia. Ele morreu no dia em que foi trabalhar com atestado médico. A minha dor me deu  diploma que ninguém tira: o da vida humana”, lamentou. Seu filho foi assassinado por aqueles que deveriam protegê-lo em 2005, quando houve uma série de crimes que ficaram conhecidos como “Crimes de Maio”. Naquele ano, foram mais de 600 pessoas mortas em uma semana.  “É importante lembrar que a economia do Brasil vive do sangue da periferia. Estão ocorrendo crimes de lesa humanidade em São Paulo, em Salvador e outros estados, onde existe o prazer de ver o sangue do negro escorrendo pelas vielas. A escravidão nunca acabou”, afirmou Débora, lembrando que recentemente em São Paulo continuam os assassinatos de negros pobres e moradores de periferia.

“Nós, parentes de vítimas da violência, vivemos do enfrentamento ao Estado omisso. Lutamos pela desmilitarização da polícia e pela federalização dos crimes. A gente tem que lutar, tem que exigir, temos que nos unir”, concluiu.

Criminalização da pobreza é um grande negócio

O professor José Claudio Alves (UFRRJ), autor do livro Dos barões ao extermínio, mostrou como a criminalização da pobreza é um negócio extremamente lucrativo. “Quanto mais gente criminalizada, mais pobreza, mais periferia, mais se ganha”, observou. Como ele mostrou, a economia ilegal está relacionada à legal, e ambas são protegidas pelo Estado opressor e criminalizador. O dinheiro que vem do tráfico e do jogo do bicho serve para alimentar o sistema financeiro, que volta à cidade do Rio sob a forma de investimento na ‘revitalização’ da cidade para receber os megaeventos, como o Porto Maravilha, por exemplo.  “Aqui no Rio de Janeiro, milícias estão ocupando áreas próximas às Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Quando ocuparam a Rocinha não houve mortos, pois é bairro de branco migrante que trabalha onde a classe média só recebe brancos. Já na ‘ocupação’ do Alemão foi bem diferente: teve tanque, pessoas alvejadas pelas costas e aplaudidas pela população”, avaliou. Hoje, como ele lembrou, o Alemão está sendo reconstruído midiaticamente com Salve Jorge, da Rede Globo.  Mas fez uma ressalva: “os moradores estão sendo inviabilizados pela novela. Eles continuam reféns dos traficantes, que permanecem, mas agora não esbanjam armas”.

José Claudio Alves fez uma breve apresentação do quadro de violência urbana na Baixada Fluminense, território distante das áreas valorizadas da cidade. “A Baixada Fluminense tem o dobro de homicídios em relação à capital. Em locais com UPP é um policial para 40 habitantes. Na baixada é um para 1900. Há pouco tempo mataram seis jovens na Baixada. Quanto mais criminalizado, mais periférico, mais se ganha aqui no Rio com a morte dos pobres”, observou. Ele finalizou lembrando que a linguagem midiática criminaliza, oprime ou então silencia as vítimas da ausência e as da violência do Estado. “Temos que dar voz, cara, espaço para quem não tem essa oportunidade. São os presos, familiares de presos, criminalizados, favelados, parentes de vítimas etc. Esse é o nosso papel”, concluiu.

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